OSMAR DILLON e a POESIA NEOCONCRETA
09-01-2006
Foto: Arremate Arte
Artista Visual.
Forma-se em arquitetura pela Universidade do Brasil, Rio de Janeiro, em 1954. Estuda como bolsista na Itália no fim da década de 50. Dedica-se à pintura e, em paralelo, à poesia. Em 1960, procura uma integração entre poesia e pintura, cujo resultado são livros-poemas e não-objetos verbais. No Rio de Janeiro integra o Movimento de Arte Neoconcreta, 1959 e 1960, e faz parte dos Domingos de Criação, 1971.
Osmar Dillon é uma das pessoas que eu mais admirei na minha juventude. Cheguei ao apartamento em que vivia, na zona sul do Rio de Janeiro, com Roberto Pontual, outro admirador e propagador de sua obra. Isso aconteceu no início do emblemático ano de 1960, ano da inauguração de Brasília, no auge do movimento Neoconcreto (criado no ano anterior pelo irmãos Campos e Décio Pignatari).
Osmar Dillon já montava seus “livros-poemas” e, em decorrência, os “não-objetos verbais”, numa experimentação de textos “manipuláveis”, participativos, escultóricos.
Um dos primeiros exercícios de ideogramação de texto é “MUSGO MURO”:
Muito já se escreveu sobre este trabalho pioneiro de Dillon(https://www.antoniomiranda.com.br/poesia_visual/osmar_dillon.html). Eu mesmo me referi a ele em várias oportunidades, no Brasil e em artigo no Suplemento Literário de la Nación, de Buenos Aires, em 1962.
Publiquei um texto sobre a criação de Dillon no célebre Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (Rio de Janeiro, 29 out. 1961).
Confesso que agora não lembrava mais... Descobri a referência bibliográfica no catálogo do artista de uma exposição individual dele — Osmar Dillon —: “objetos múltiplos” 1972: Galeria de Arte Ipanema. Não conservei, infelizmente, o recorte do jornal nem o manuscrito mas certamente aludia à fusão verbal com o visual em sua obra:
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Logo em seguida Dillon partiu para a “integração das artes”...
“Uma poesia de permanente fundamento plástico como se as palavras se destinassem à pintura (“meus dedos são tubos de tinta”); uma pintura de fala, com a visceralidade de contorções oníricas correspondendo ao jogo aliterativo de toda a sua poesia. Assim com a poesia perdendo palavras, mas não a referência ao mundo exterior. E a pintura abandonando a figuração explicita, mas não o símbolo — foi por um processo natural de despojamento de ambos os âmbitos, e com o acréscimo de sua tarefa profissional de arquiteto, que ele formulou a partir de 1960 o rumo, ainda hoje se desdobrando.
Surge a proposta “neoconcreta” de Wladmir Weidle
(poeta russo e escritor (1895-1979)) — referindo-se a Pontual no referido catálogo — “no sentido de sua nítida semelhança estrutural com os organismos vivos.“ Assegurando o revigoramento de três vetores básicos da arte em nosso século XX, substituição do ato de representar a realidade pelo de presentificá-la; a emergência da ideia de participação como co-autor da obra, infinitamente aberta, e a síntese dos antes estanques departamentos da expressão, tentativas de ampliar e aprofundar a fusão da palavras e a visualidade, seja em ideogramas verbais, em livros-poemas ou em não-objetos, termo visionariamente criado por Ferreira Gullar para definir uma nova categoria de trabalho.
Um exemplo é o livro-poema Ave (1960) e os “não-objetos verbais”, em que a manipulação da placa, presa ao centro do suporte, podia ser circulada no processo de “leitura” segundo o voo. Em verdade o “voo”, movimento da asa, é dado pela participação do “leitor” pela movimentação da peça.
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Previsível ver que o artista-arquiteto parte para uma criação ainda mais “vivencial”, através de projetos de movimentos como o “so”, que chegou a ser semifinalista do
Symposium Urban Nüremberg.
“Uma proposta de atingir e ativar o inconsciente pela envolvência dos choques de visualidade amalgamada a sons, palavras, materiais e tempo — a vida totalizada. Mergulhado e envolvido, o homem se conheceria, alfa e ômega, retornando. Teria passado pelo frio e fogo de sua própria matéria.”
Uma autêntica “instalação” só que permanente, como um templo para a vivência, digamos, litúrgica em sua relação com a arte e a poesia.
Em 1966 eu (Antonio Miranda) fui para a Venezuela e só voltei a estar com Dillon em 1968, numa breve visita que fiz ao Rio de Janeiro. De lá para cá perdi contato com o grande artista. Descubro-o pela Internet, que é o lugar de encontro com os contemporâneos. Quase 40 anos depois!
Quero completar a presente homenagem ao amigo Dillon com a imagem de um de seus trabalhos mais recentes. Atestando a evolução e a permanência de uma proposta criativa que se renova, mas não trai as suas raízes, como sugeriu o lastro de sua sustentabilidade.
www.google.com
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“0 passo seguinte, no impulso da curiosidade por diferentes processos, seria o abandono da pura superfície do papel em busca do espaço tridimensional concreto que nos circunscreve. CHEIO é o melhor exemplo dessa transição de extrema importância: aqui, a folha vazada nos conduz para além do plano e engendra seu significado pela tensa oposição dos elementos verbais ( cheio ) e visual ( vazio). É preciso constatar ainda, nesse mesmo ideograma, o emprego tático de uma particularidade física das letras que constituem a palavra CHEIO, todas elas permanecendo simetricamente idênticas quando divididas pela metade, e que impede, nessas circunstâncias, que a palavra tenha um avesso”.
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Roberto Pontual pretendeu assinalar que, se o “leitor” (visualizador, manipulador...) virar a folha ao contrário e virá-la de cabeça para baixo, ela continuará apresentando a palavra CHEIO, e não o seu avesso... Efeito que poderá ser apresentado numa animação gráfica.
Cabe ressaltar ainda que as letras estão vazadas na superfície da página, pelo corte do papel, efeito tridimensional que a Internet (ainda) não consegue apresentar...
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